Para muitos latino-americanos que acompanharam de perto alguma expressão musical da Península Ibérica, a primeira referência costuma ser o flamenco: a sua intensidade, o seu “quejío” aberto, a sua forma quase física de transformar a emoção em voz. No entanto, existe outra tradição que partilha raízes profundas com esse universo do sentimento, mas que se expressa a partir de um lugar mais recolhido, mais íntimo. O fado português não procura tanto a explosão, mas sim a contenção, e nessa diferença abre-se um território emocional próprio.

O fado, com a sua carga de “saudade”, de lamento contido e a sua forma de narrar a perda, pode parecer distante para um ouvido latino-americano, seja o de um hispanófono da Colômbia, de El Salvador ou do México, ou mesmo o de um brasileiro, herdeiro da língua de Camões. E é que, para muitos deles, a primeira grande referência musical da Península Ibérica costuma ser o flamenco, embora este também conviva num panorama global onde o reggaeton — com as suas sonoridades próprias das Caraíbas — ocupa hoje um lugar de enorme projeção internacional. No entanto, para além das hierarquias ou das modas, os géneros musicais respondem sempre a sensibilidades distintas, e disso é bom exemplo Cuca Roseta, uma das vozes consolidadas do fado contemporâneo, esse ‘sentimento sonoro’ profundamente português. Na sua perspetiva, essa distância inicial começa a esbater-se

“A forma de sofrer do fado, ao contrário do flamenco, é diferente. O fado é mais contido”, explica, como quem revela um matiz essencial: não é que a dor seja menor, mas sim que se exprime para dentro, como se se cantasse a partir do peito, mais do que a partir de uma ferida aberta.

Neste contexto, Roseta afirmou-se como uma das vozes contemporâneas mais reconhecidas do fado. O seu percurso coloca-a entre aqueles que têm contribuído para manter viva a tradição, ao mesmo tempo que a aproximam de novos públicos fora de Portugal. Com uma presença cada vez mais internacional, a sua voz levou o fado a palcos onde este género era praticamente desconhecido, tornando-se uma ponte entre a tradição e audiências globais. Nela convivem o respeito pelas raízes e uma sensibilidade contemporânea que lhe permite dialogar com ouvintes de diferentes culturas, sem diluir a essência do género.

Nesse cruzamento entre tradição e projeção, ela — portuguesa orgulhosa —, a sua presença em palco e a sua forma de estar no mundo parecem encarnar essa multiculturalidade que atravessou a história de um país com fronteiras de longa data na Europa. Na sua figura insinuam-se traços morenos e uma fisionomia marcada pela mistura histórica de culturas da Península, enquanto a sua voz parece tocar a fibra até do mais frio. Nela, o fado não se limita a ouvir-se: encarna-se.

E é precisamente a partir dessa identidade tão enraizada — mas ao mesmo tempo aberta — que a sua voz acabou por cruzar fronteiras. Longe de ficar contido na sua origem, o fado que Roseta interpreta projeta-se para outros públicos e outras línguas, encontrando ressonâncias onde, à partida, não seria evidente que existissem.

“Canto, sobretudo para estrangeiros”, diz. “E tenho recebido, em diferentes lugares do mundo, comentários muito emotivos sobre o meu canto.” Recorda especialmente a Polónia, um país pouco habituado a expressar-se de forma tão fervorosa; mulheres aproximaram-se dela, comovidas: “Sentem que esse grito meu, de alguma forma, é também o grito delas”.

Talvez aí resida um dos grandes paradoxos do fado: a sua aparente distância cultural transforma-se, na experiência de quem ouve, numa forma de proximidade emocional imediata, em que as barreiras da língua se diluem, porque o sentimento transcende e a emoção torna-se uma linguagem universal.

Dito isto, conversar com ela é um exercício revelador. A sua relação com o fado não é apenas artística, mas profundamente vital: um género com o qual se sente plenamente identificada e do qual, como a própria sugere, não poderia separar-se. Neste encontro, fiz-lhe algumas perguntas para compreender melhor a sua visão sobre a sua evolução enquanto expressão artística e o lugar que ocupa na sua vida e no mundo contemporâneo.

Nesse cruzamento entre o íntimo e o universal, surge também a questão da origem dessa ligação tão profunda. Como se descobre um caminho assim?

Cuca Roseta pelas lentes de Pedro Ferreira.

Lembras-te do momento em que descobriste que o fado era o teu caminho?

Quando participei de um concurso de fados no Porto, aprendi fados para isso, os primeiros que cantei e fui até lá para participar, esse momento em que cantei senti algo diferente neste estilo de música, como um reconhecimento do meu propósito de vida. 

Os/as fadistas têm sempre referências claras dentro do fado, mas e o que há para lá disso, dessas outras vozes e autores que inspiram? Que artistas te influenciaram ao longo da tua vida, mesmo fora do fado?

Whitney Houston, Nina Simone, Frank Sinatra, Michael Jackson, Freddie Mercury, Nat King Cole.

Quais eram os teus sonhos como artista quando começaste e o que sentes ao olhar para tudo o que já alcançaste até agora?

Nunca tive grandes ambições, os meus sonhos parecem-me bem simples, e acho que já realizei todos, ser embaixadora de Portugal no mundo, poder utilizar o meu instrumento ou dom para fazer os outros felizes, sentir que crio algo, que faço algo pelo mundo, depois tudo o que foi surgindo, sempre foram surpresas muito para lá dos meus sonhos, por isso eu agradeço todos os dias as incríveis experiências que já vivi que continuo a ficar perplexa por tanta abundância que tenho tido, de tanto que vivi que nunca imaginei.

Se, por alguma razão, não pudesses dedicar-te ao fado, imaginar-te-ias a fazer outra coisa?

Penso que não, não deixaria de ser fadista, não penso sequer nessa possibilidade, o fado faz parte do meu corpo, sem ele é como perder uma parte de mim, se por alguma razão alheia tivesse de me reinventar, ia ter imenso que fazer pois tenho sempre uma grande vontade de aprender, de fazer, de criar, e as minhas áreas de interesse são infindas. Mas sinto e sei que estou a fazer aquilo que era suposto, ou a cumprir com o meu propósito de alma: cantar.

Como achas que o fado deve evoluir no presente sem perder a sua essência?

Acho que o fado deve manter as suas raízes, mas também é importante que o fado atual se identifique com as histórias das pessoas do nosso presente. No seu tempo eram outras realidades e outros temas que carregavam essa carga emocional no fado, e isso hoje mudou.

Falar do fado é, em certa medida, falar da sua máxima representante, e com especial significado por ter sido uma mulher: Amália Rodrigues. Uma figura de mundo, visionária, que parecia ir contra a corrente do Portugal da sua época, marcado pela ditadura, pela rigidez social e por uma forte estrutura patriarcal. Que lugar achas que ela ocupa na evolução do fado e que legado deixa dentro do género?

Amália Rodrigues é única. Na altura foi muito criticada, mas levou o fado para todo o mundo e para todo o tipo de pessoas. Trouxe a poesia e textos de grandes poetas para o fado e acabou por inovar também no uso de instrumentos como o baixo e o piano.

Para terminar, o fado é considerado como um género de escuta mais lenta, mais exigente na sua cadência e na sua carga emocional, quase em contraste com a rapidez e a imediaticidade de grande parte da música atual. Como convive o fado com este presente tão acelerado e que lugar achas que ocupa hoje dentro desse panorama musical mais global e diverso?

O fado começou por ser um lamento, mas ao longo do seu percurso soube transformar-se sem perder a sua essência. O que antes era a expressão de uma emoção íntima e geracional, hoje convive com novas leituras, sem abandonar as suas raízes.


Juan Quintero Herrera é um contador de histórias nascido na América (na Colômbia), com fortes vínculos com o Brasil, Portugal e o mundo lusófono. Publicou dois livros de ficção e também dirigiu dois curta-metragens. Um apaixonado pelo jornalismo cultural, pelas boas crônicas e pela psicologia.

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Publicado por:Philos

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